O deus da religião moderna

idolatria

A estátua do deus da religião moderna está erguida. Todos os dias, sob ameaça, somos instados a adorá-la

Pr. Cleber Montes Moreira

“O rei Nabucodonosor fez uma estátua de ouro…” (Daniel 3:1).

Hananias, Misael e Azarias, mais conhecidos por seus nomes babilônicos, Sadraque Mesaque e Abednego, eram três jovens cheios de sabedoria que foram recrutados por Nabucodonosor para a Babilônia, por volta do ano 605 a.C. Eles são muito conhecidos pelo episódio em que se recusaram a adorar uma estátua de ouro levantada no campo de Dura, bem como em servir aos deuses babilônicos, motivo pelo qual despertaram a fúria do rei e foram lançados numa fornalha de fogo ardente, aquecida sete vezes mais que habitualmente.

Hoje não temos uma estátua de ouro, e nem lei que nos obrigue a adorá-la. Não há, pelo menos nos países democráticos, ameaças formais contra a vida daqueles que não praticam determinados cultos. Também não temos um ‘Nabucodonosor’, embora o seu espírito esteja presente em nossa sociedade e ídolos sejam levantados na expectativa de que os adoremos. Estes ídolos podem não ser da grandeza daquela estátua, mas há vários construídos com ouro, prata, bronze, madeira, barro, outros que estão no imaginário das pessoas, sem representação material, e também deuses humanos — políticos, celebridades, autoridades religiosas etc. Há outros que podem ser um bem material, o dinheiro, um prazer, uma religião humana, ou qualquer outra coisa entronizada no coração.

Paulo, escrevendo aos coríntios, diz que “o deus deste século cegou os entendimentos dos incrédulos, para que lhes não resplandeça a luz do evangelho da glória de Cristo, que é a imagem de Deus” (2 Coríntios 4:4). Este deus é Satanás. Antigamente era incomum alguém se declarar um adorador de Satã, porém, hoje, existe a “Igreja de Satanás”, formada a partir do pensamento de Anton LaVey, com presença em vários países, inclusive no Brasil, e seus adoradores se reúnem livremente para estudar a “bíblia satânica”, praticar seus ensinos e divulgarem o que chamam de “Satanismo Moderno”. Há, inclusive, um site para o público brasileiro, para que as pessoas acessem, se cadastrem e até realizem uma prova para se tornarem membros da seita.

O maior objeto de adoração neste mundo não é o diabo, embora qualquer culto idolátrico lhe agrade, nem uma estátua, nem mesmo o dinheiro. O maior ídolo, cuja adoração é praticada largamente em cada canto deste planeta, mesmo sem uma confissão explícita de seu “adorador” — isso seria politicamente incorreto —, é o ego. Sim, o egoísmo é a religião de quem vive para si, de quem, na linguagem paulina, tem o ventre como deus: “Porque muitos há, dos quais muitas vezes vos disse, e agora também digo, chorando, que são inimigos da cruz de Cristo, cujo fim é a perdição; cujo deus é o ventre, e cuja glória é para confusão deles, que só pensam nas coisas terrenas” (Filipenses 3:18,19 — grifo do autor). Certamente que ninguém escreve em seu abdome “Templo ao Eu”, nem sai por aí gritando “eu sou o meu deus”, entretanto, o modo como se vive, os interesses, os valores e as prioridades de alguém indicam qual é sua ‘religião’ e a quem adora. O ‘eulatrismo’ se caracteriza, além da busca pelos interesses próprios, muitas vezes a qualquer custo, pelo individualismo como estilo de vida — a pessoa não se isola literalmente, mas se casa com o seu “eu”; ela pode ser casada ou não, ter filhos, trabalhar numa empresa, frequentar um clube ou mesmo um templo religioso, praticar algum esporte coletivo, ter carreira política, enfim, ter “vida social” mas viver isolado acima dos interesses comuns. Uma boa palavra para descrever este modo de vida é sologanismo1. Esta prática tão comum, mesmo que inconsciente para muitos, revela o cumprimento da profecia paulina que diz: “Porque haverá homens amantes de si mesmos…” (2 Timóteo 3:2) — amantes, apaixonados, compromissados, casados com seus interesses e vontades, vivendo para si.

Um exemplo deste estilo de vida vemos em artigo publicado no site “Manual do homem moderno”, intitulado “A arte de ser feliz sozinho”, onde lemos: “Viver sozinho permite fazer o que queremos, quando queremos, em nossos próprios termos. Ele nos liberta das restrições de necessidades e demandas de uma parceira e nos permite concentrar em nós mesmos. Este é um grande momento de reflexão e aceitação. Permita-se ser quem você quiser.”2 O problema é que para “ser feliz sozinho” a pessoa sempre dependerá de outra, ainda que apenas como objeto que sirva a seus intentos, porque até neste caso é impossível ser feliz sozinho.

Dentre vários comportamentos e movimentos que refletem a ‘egolatria’, está o feminismo quando milita, por exemplo, contra a natalidade. O site “Área da mulher” publicou matéria intitulada “Não quero ter filhos — Principais motivos, tabus e importância da decisão”. No texto a maternidade é tratada como “uma tradição dos nossos antepassados há milhões de anos”, e que “tem sido imposta como uma obrigação social para as mulheres. Em outras palavras, é como se elas estivessem predestinas a procriar e cuidar dos filhos”3.

Um casal colombiano aderiu a uma campanha contra a natalidade, optando por adotar cães em vez de ter filhos. Uma das alegações é que querem continuar levando a vida de antes do casamento: viajar, divertir, não ter hora nem regras, e andar pelados pela casa dentre outras coisas. Os filhos seriam empecilhos. Além do mais, ter filhos seria ecologicamente incorreto, porque pessoas poluem o ambiente. Por isso, melhor adotar cachorros que já estão por aí, e castrá-los, que colocar mais pessoas no mundo. Campanhas contra a natalidade já são comuns e ganham cada vez mais adeptos, especialmente entre celebridades e influenciadores.

O pensamento social está sendo moldado de modo que os valores cristãos vão dando lugar a novos valores, dissociados da Bíblia. Autonomia financeira, conforto, prazer, liberdade, felicidade etc., são palavras chaves que revelam quais são as prioridades desta geração e qual é seu deus.

O mundo — como sistema organizado e contrário aos preceitos bíblicos — labora para que o “antiquado” dê lugar ao “novo”. Para esta sociedade pós-cristã, os valores das Escrituras Sagradas são desprezíveis. Ler ou ter exemplares da Bíblia, bem como símbolos religiosos nas escolas, nas bibliotecas públicas e repartições, por exemplo, torna-se estranho ou mesmo proibido. Na prática, o que se pretende é criminalizar a fé. Por isso que pregadores que falam publicamente contra comportamentos pecaminosos estão sendo processados, enquanto influencers que induzem crianças ao sexo precoce ou ensinam ideologia de gênero em redes sociais são tratados como “pessoas do bem”.

Nabucodonosor queria obrigar o povo a adorar sua estátua. O mundo quer nos impor uma nova ordem e uma nova religião. Quem não se conforma, fica marginalizado. Em sua oração por seus discípulos, o Senhor disse: “Dei-lhes a tua palavra, e o mundo os odiou, porque não são do mundo, assim como eu não sou do mundo” (João 17:14). A Bíblia, os seus ensinos, são o motivo pelo qual o mundo nos odeia e trabalha contra nós.

A estátua do deus da religião moderna está erguida. Não está num campo, num grande centro ou lugar de peregrinação, mas no coração humano. Todos os dias somos instados a adorá-la, sob ameaça de sermos tratados como estranhos, preteridos, e denunciados como retrógrados, fanáticos, fundamentalistas etc. Se pudessem, nos lançariam numa fornalha de fogo ardente, ou nos queimariam em fogueiras como fizeram com os mártires. Ainda não podem, mas… “Então vos hão de entregar para serdes atormentados, e matar-vos-ão; e sereis odiados de todas as nações por causa do meu nome” (Mateus 24:9).


1          Os adeptos da ‘sologamia’ dizem que a prática significa comprometimento com o amor-próprio, com os próprios interesses e a própria felicidade. Em resumo, ‘sologamia’ é o ato de contrair casamento consigo mesmo.

2          https://manualdohomemmoderno.com.br/desenvolvimento/a-arte-de-ser-feliz-sozinho

3          https://areademulher.r7.com/maternidade/nao-quero-ter-filhos/

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